Charli XCX em filme de Scorsese só é boa ideia se ela tiver um papel de verdade
Colocar Charli XCX ao lado de Scorsese, DiCaprio e Lawrence empresta o alcance do pop ao cinema de prestígio, e só funciona se ela interpretar uma personagem, não uma manchete ambulante.
Foto: Sara Komatsu / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O que acontece quando a dupla de diretor e astro mais cheia de pedigree do cinema americano recorre a uma estrela pop? Ou é uma aposta criativa inteligente, ou é uma frase de marketing muito elegante. Com a entrada de Charli XCX em What Happens at Night, de Martin Scorsese, vamos descobrir qual das duas.
Sabemos quase nada sobre o papel, e essa é a história toda
Como informa a Variety, Charli XCX entrou para o elenco ao lado de Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence. O papel dela não foi revelado. A descrição de um podcast do Spotify diz que ela "supostamente faz uma ponta", mas é uma única formulação vaga, então o tamanho do papel não está confirmado. Guarde essa palavra: ponta.
O filme, segundo o The Playlist, adapta o romance de Peter Cameron. Um casal americano viaja a uma pequena cidade europeia para adotar um bebê, e o que se segue é um hotel congelado no tempo e uma confusão que vai tomando conta. Mads Mikkelsen, Patricia Clarkson e Jared Harris também estão no elenco. O Stereogum diz que o filme foi descrito como um terror psicológico gótico, produzido pela Apple e pela StudioCanal. É o sétimo filme de Scorsese e DiCaprio juntos.
O elenco já é o argumento de venda, então por que uma estrela pop?
Olhe essa escalação. Uma sétima parceria Scorsese-DiCaprio, uma Lawrence perfeita para a temporada de premiações, Mikkelsen, Clarkson. É um filme que se vende sozinho para cinéfilos, festivais e votantes de prêmios. Ninguém precisa de Charli XCX para abri-lo a esse público.
Então a lógica é sobre o outro público. Um drama de câmara gótico sobre adoção e inquietação, ambientado numa cidade europeia no inverno, não é atração óbvia para quem vive de playlists de streaming. Um nome global da música é uma porta de entrada. Achamos que essa é a leitura honesta: o cinema de prestígio pegando emprestado o alcance do pop, e de olhos abertos.
Há também um ciclo curioso. O Stereogum observa que Scorsese aparece na capa do novo álbum de Charli, Music, Fashion, Film, representando o cinema. Ele emprestou a imagem a ela; agora ela empresta o público a ele. Essa reciprocidade faz parecer menos um truque de estúdio e mais um pacto de admiração mútua, pelo menos para nós. Se isso é charmoso ou calculado depende do que acontecer na tela.
O papel decide tudo
Não foi revelado o tamanho nem a importância do papel de Charli, então o que vem a seguir é opinião, não reportagem.
Nossa visão é simples. Uma ponta que existe para que trailers e posts em redes sociais mostrem um rosto famoso é um golpe de efeito, e um filme com tanta angústia embutida na premissa não pode bancar isso. O terror e a inquietação psicológica dependem de que cada rosto naquele hotel estranho pareça pertencer ao lugar. O espectador que reconhece uma estrela pop e pensa "olha, é ela" quebra o encanto, e isso é um risco real numa história sobre personagens que perdem o contato com a realidade.
O outro lado é atraente. Se ela for escalada como uma moradora daquela cidade, mais uma presença estranha num lugar que não é o que parece, a fama pode até ajudar o filme. A melhor escalação de celebridade desaparece dentro da personagem depois de uns dez minutos.
Não chame de venda da alma ainda: chame de teste
Não leia isso como sinal de que Scorsese virou comercial. Leia como um teste. A escalação é uma ideia inteligente se o papel tiver peso e razão de existir na história. É um truque barato se for uma piscadela para o algoritmo.
Enquanto a Apple não mostrar mais, ficaríamos na curiosidade, não no cinismo. A imagem de divulgação de DiCaprio e Lawrence caminhando na neve sugere um filme sério e austero. Nosso conselho: julgue Charli XCX pela cena, não pelo comunicado. Se ela roubar noventa segundos de um elenco de pesos-pesados, vai parecer um golpe de mestre. Se só passar pelo quadro, será lembrada como uma manchete.
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