Filme de Nathan Fielder sobre Holmes prova que documentário estranho pode chegar ao grande público
Um documentário de quase três horas sobre Elizabeth Holmes, que mistura gêneros, atrai multidões aos multiplexes. Os estúdios deveriam ver aí demanda por esquisitices autorais, não acaso.
Imagem gerada por IA
Quando foi a última vez que um documentário de quase três horas sobre uma fundadora caída em desgraça do Vale do Silício foi tratado como evento de multiplex? Se a sua resposta é "nunca", você está em boa companhia, e é justamente por isso que You Can See Everything importa mais do que a bilheteria por si só.
Eis o que sabemos. A A24 lançou o filme, dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, em 16 de outubro. A Variety informou uma estreia de US$ 15 milhões em apenas 855 salas. A Wikipédia registra um orçamento de produção de US$ 7 milhões e uma arrecadação de US$ 23,4 milhões até agora. Um tópico do fórum r/boxoffice, que tratamos apenas como boato não confirmado, fala em expansão para pelo menos 2.600 salas neste fim de semana. A duração, segundo o IMDb, é de 2 horas e 54 minutos.
O rótulo de "nicho" sempre foi desculpa de orçamento
Olhe o que este filme é. Ele acompanha Elizabeth Holmes e seu parceiro, Billy Evans, antes de ela começar a cumprir pena em prisão federal, e depois sofre uma mutação: reconstituições, uma atriz revisitando um papel, um diretor cuja objetividade é questionada. Como descreve o Hollywood Reporter, o público do Festival de Cinema de Nova York gritava nas reviravoltas como se a A24 estivesse relançando Midsommar. Esse não é o perfil de um documentário educado e didático.
Os estúdios costumam arquivar esses projetos como "conteúdo de prestígio para streaming" ou "coisa de festival". A lógica implícita: forma estranha, público pequeno. Um filme de US$ 7 milhões que já arrecadou mais de três vezes o orçamento mostra, a nosso ver, que essa lógica é preguiçosa. O público não tem alergia ao estranho. Tem alergia ao insosso.
E pense no tamanho do pedido. É um filme que exige quase três horas da sua noite, num mercado em que executivos vivem preocupados que tudo acima de duas horas precise de um super-herói. As pessoas vão mesmo assim. Achamos que isso diz menos sobre o boom dos documentários e mais sobre a fome por algo que não pareça montado a partir de pesquisa de mercado.
A autoria é o marketing
O que vendeu este filme? Nem franquia, nem veículo para um astro. O Hollywood Reporter cita Dennis Lim, chefe de programação do NYFF, que ao apresentar a sessão se referiu ao teaser: "São três horas disso." Ele acabara de descrever um minuto desse teaser como o que fez "o mundo, ou pelo menos a internet, perder a cabeça coletivamente". Some a bagagem de The Rehearsal, de Fielder, e você tem uma marca construída sobre a sensibilidade de uma pessoa.
Essa é a lição que gostaríamos que os executivos tirassem. Uma voz distinta é uma campanha de marketing pronta, e o sigilo ajuda. Os cineastas pediram ao público que preservasse a descoberta, o que faz de ver o filme no cinema, com estranhos, parte do produto. Fugir de spoilers é um ótimo motivo para comprar ingresso neste fim de semana em vez de esperar por uma plataforma.
Não tire a lição errada
Agora as ressalvas, porque são reais. O tema é um escândalo conhecido de todos, então havia curiosidade embutida. A A24 também parece ter expandido em etapas, em vez de inundar as telas no primeiro dia, começando com 855 salas, e essa paciência nos parece inteligente. Suspeitamos que os estúdios farão o oposto do que esperamos: correr atrás de clones de "true crime, mas meta" sem o acesso nem a coragem.
O próprio Fielder disse que passou meses filmando sem saber se algo se materializaria, e o Hollywood Reporter afirma que a A24 lhe deu uma saída de emergência caso ele decidisse que não havia material suficiente. Essa tolerância ao risco é o verdadeiro ativo e, na nossa opinião, não pode ser copiada por uma planilha.
O veredito
O lançamento amplo de documentários esquisitos não deveria ser uma exceção concedida a um comediante e a um escândalo. Dê orçamentos modestos a cineastas com voz própria, deixe o boca a boca trabalhar e amplie quando os números justificarem. You Can See Everything parece estar fazendo exatamente isso. Se você está decidindo se vê no cinema, diríamos: vá, sabendo o mínimo possível. E se você comanda um estúdio, pare de dizer "nicho" até conferir os números deste fim de semana.
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