In Waves pode ser o teste mais ousado da animação adulta da Netflix
Cannes, Annecy e TIFF dão prestígio a In Waves, mas a Netflix precisa transformar esse embalo dos festivais em um filme que adultos procurem ativamente.
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E se o mais importante em In Waves não for o fato de ser uma animação, mas a capacidade de a Netflix convencer o público a tratá-lo como um drama sério? Essa é a aposta por trás desta história de amor ambientada no surfe: tirar a animação da ala infantil, levá-la pelo circuito de festivais e colocá-la na conversa sobre prêmios. O risco é que o prestígio se transforme em uma forma muito elegante de invisibilidade quando o filme chega a um serviço de streaming.
Dirigido por Phuong Mai Nguyen, In Waves acompanha AJ, um reservado estudante do ensino médio de Los Angeles que desenha e anda de skate, e Kristen, uma surfista apaixonada. O romance dos dois é transformado pela doença de Kristen, enquanto o universo emocional do filme se constrói em torno do amor, do luto, da amizade, da família e do oceano. A história é adaptada da graphic novel autobiográfica de AJ Dungo, publicada em 2019, e foi inspirada no relacionamento real de Dungo, como informa a Deadline.
O filme já tem o tipo de credenciais que torna plausível a atenção dos prêmios. Ele abriu a Semana da Crítica de Cannes em maio, foi selecionado para Annecy e TIFF e está programado para abrir o 30º American French Film Festival, em Los Angeles, em 3 de novembro de 2026. Na França, chegou aos cinemas em 1º de julho, enquanto a programação do festival nos Estados Unidos indica dezembro de 2026 como janela de lançamento da Netflix. A Variety detalha a seleção do filme para o festival de Los Angeles. A trajetória do filme pelos festivais pode dar à Netflix uma plataforma para uma campanha ao Oscar, mas isso continua sendo uma possibilidade editorial — não uma estratégia de estúdio documentada.
In Waves defende a força emocional da animação sem pedir desculpas por isso
A premissa poderia facilmente ter produzido uma isca sentimental de prestígio: amor jovem, doença grave, luz do sol californiana e ondas combinados em um melodrama previsível. O que torna o projeto mais interessante é a decisão de usar a animação não como embalagem decorativa, mas como uma forma de aproximar-se da doença e do luto de maneira indireta. A história da produção descreve uma mistura de animação 2D e 3D, com acabamento texturizado em 2D e um fluxo de trabalho técnico desenvolvido no Blender para criar as sequências do oceano e do surfe.
Essa escolha importa. O cinema em live-action costuma tratar a doença como uma exigência de realismo; a animação pode transformar memória, medo e desorientação emocional em espaço visual. O oceano pode ser vasto sem ser apenas fotorrealista, e o luto pode se tornar uma mudança de cor, ritmo ou movimento, em vez de mais um close planejado para forçar uma reação. Acreditamos que isso dá a In Waves uma razão artística genuína para existir como animação.
Nguyen também parece estar evitando uma tradução literal do material de origem. O filme usa cores mais vivas e saturadas do que a graphic memoir em tons sépia e azuis de Dungo, amplia as relações familiares e reduz a extensa história do surfe presente no livro. Essas mudanças sugerem um filme em busca de sua própria linguagem emocional, em vez de tratar a graphic novel como um roteiro ilustrado. É exatamente esse tipo de autoria que pode fazer um filme de festival se destacar.
O prestígio dos festivais só será útil se a Netflix transformá-lo em um evento
O currículo de festivais impressiona no papel: Semana da Crítica de Cannes, Annecy, TIFF e agora o American French Film Festival. Mas credibilidade em festivais não é o mesmo que reconhecimento público. Um filme pode ser recebido com entusiasmo pelos programadores, admirado pela crítica e ainda assim chegar a uma plataforma sem deixar marca cultural além de um pequeno círculo de fãs de animação.
Essa é a contradição central da posição da Netflix. O streaming dá a In Waves um lar potencialmente enorme, mas o catálogo também nivela as diferenças. Um filme que abriu Cannes pode ficar lado a lado com centenas de outras recomendações, esperando que um algoritmo explique por que merece atenção. Se a Netflix quer que o público adulto veja isso como um drama cinematográfico, precisa divulgar o filme com a seriedade de um: não como “um filme de animação”, mas como uma história de amor específica, com uma diretora de identidade artística marcante e um motivo para ser assistida agora.
A abertura no festival de Los Angeles, em 3 de novembro, oferece uma ponte útil entre a cultura cinematográfica e o alcance do streaming. Ainda assim, a janela de lançamento nos Estados Unidos em dezembro cria uma oportunidade curta. A campanha precisa fazer o filme parecer relevante antes da enxurrada de lançamentos do período de festas e antes que a conversa sobre prêmios seja dominada por concorrentes mais barulhentos e conhecidos. Na nossa visão, um lançamento discreto enfraqueceria o argumento que In Waves é capaz de apresentar.
O teste da animação adulta é maior do que uma campanha ao Oscar
A animação nunca teve falta de alcance emocional; o que faltou foi uma confiança industrial consistente no público adulto. Projetos como In Waves costumam ser convocados a provar, em um único lançamento, que um filme de animação não voltado às crianças pode ser artisticamente ambicioso, emocionalmente difícil e comercialmente compreensível. É uma carga injusta, mas a Netflix está bem posicionada para assumi-la, porque sua plataforma pode conectar uma produção franco-belga a espectadores que talvez nunca a encontrassem em um lançamento tradicional nos cinemas.
Ainda assim, alcance não é o mesmo que descoberta. O público adulto precisa de um motivo para escolher o filme em vez de dramas em live-action, e os fãs de animação precisam saber que este não é simplesmente um título infantil com uma premissa mais triste. A campanha deveria abraçar essa tensão: trata-se de um romance de amadurecimento, de uma história sobre uma doença grave e de um filme cujo design visual é inseparável de seu tema. Esconder a animação seria um erro; usá-la como chamariz sem explicar o drama seria outro.
O provável ganho aqui não está em uma campanha de prêmios por si só, mas na possibilidade de mudar a maneira como a plataforma apresenta o cinema de animação. Se In Waves receber um investimento real de divulgação, pode se tornar um modelo para tratar a animação como um drama conduzido por um cineasta. Se for discretamente depositado no catálogo, sua trajetória pelos festivais parecerá menos uma plataforma de lançamento e mais um prefácio que ninguém lê.
O veredito: In Waves merece ser visto tanto pela ambição por trás de sua forma quanto por suas perspectivas no circuito de prêmios. A Netflix deveria fazer uma campanha ousada, e o público adulto deveria procurá-lo deliberadamente quando chegar em dezembro de 2026. Este é exatamente o tipo de filme que precisa encontrar uma audiência antes que o algoritmo decida que ela existe.
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