Netflix recuou no caso Xbox, e foi a decisão mais inteligente que tomou este ano
Uma oferta de US$ 500 milhões encontrou um pedido de US$ 800 milhões. O recuo da Netflix indica que as marcas da Xbox são precificadas como ouro de prestígio e que streamings não devem pagar demais por adaptações.
Foto: Microsoft Corporation / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Quem pisca primeiro quando um streaming quer uma franquia e o dono de uma plataforma precisa de dinheiro? Segundo a reportagem mais recente, foi a Netflix, e achamos que foi a decisão certa.
A diferença de US$ 300 milhões mostra quem está cobrando demais
Conforme o Puck noticiou, via wnhub, a Netflix ofereceu à Microsoft US$ 500 milhões por uma licença de sete anos para adaptações de jogos do Xbox para cinema e TV. A Microsoft fez uma contraproposta de US$ 800 milhões. A oferta partiu da chefe de conteúdo, Bela Bajaria, e a contraproposta, da CEO do Xbox, Asha Sharma, e de sua equipe de negociações. Em 15 de outubro, a Netflix anunciou a saída de Bajaria, e o Puck diz que a oferta foi retirada depois. A mesma reportagem afirma que o diretor financeiro, Spencer Neumann, estava entre os que consideraram o preço alto demais.
Nenhuma das empresas confirmou os valores, e a Netflix não quis comentar. O Xbox disse ver um interesse recorde em suas propriedades intelectuais e chamou a Netflix de parceira valiosa. As duas já trabalham juntas em séries animadas de Minecraft e Diablo. Os números devem ser tratados como reportados, não oficiais.
A Microsoft precifica um catálogo como se fosse um sucesso pronto
Em agosto, o What's on Netflix repercutiu uma reportagem do Puck segundo a qual a Microsoft queria mais de US$ 300 milhões por um pacote de longo prazo com mais de uma dúzia de franquias, incluindo Halo, World of Warcraft, The Elder Scrolls e Diablo, com Netflix, Paramount e Universal supostamente avaliando. O pedido reportado depois foi de US$ 800 milhões por uma licença exclusiva de sete anos. As reportagens não descrevem os dois casos como o mesmo negócio, então não dá para falar em simples aumento de preço. Ainda assim, é difícil não ver no valor maior um vendedor que sabe que há vários compradores interessados.
É a lógica de um mercado de vendedores, e achamos que ela se justifica em parte. Os games são os novos quadrinhos, e a própria Netflix ajudou a construir essa fama com Arcane, Cyberpunk: Edgerunners e Castlevania. Mas esses sucessos são motivo para cautela, não para pagar qualquer preço. Uma licença não é uma série. O dinheiro compra o direito de tentar, e depois ainda é preciso financiar, escrever e divulgar cada adaptação. Como o veículo italiano Gametimers observou com razão, comprar direitos não significa automaticamente ter um sucesso.
Há também contexto para a pressa da Microsoft. O Puck, segundo o What's on Netflix, diz que o Xbox cortou 3.200 empregos em julho, cerca de 20% da força de trabalho da unidade. Quem precisa de um cheque grande pede um cheque grande. Isso não é um veredicto sobre quanto Halo vale para o público, e sim sobre quanto a Microsoft gostaria que valesse.
A exclusividade é a parte cara, e a que menos vale
O detalhe mais revelador é o que a Netflix queria: sete anos de exclusividade sobre os direitos de adaptação do Xbox para cinema e TV. Em nossa opinião, esse é o item errado para pagar um adicional. Hollywood já viu uma série de Halo que durou duas temporadas no Paramount+ antes de ser cancelada, e os direitos voltaram ao Xbox. Nem um nome famoso garante vida longa. Pagar por uma exclusividade ampla é pagar por cada fracasso junto com cada sucesso.
O Xbox agora parece concordar com essa lógica, do outro lado da mesa. Segundo o Puck, abandonou o grande acordo único e vai licenciar em pacotes menores para mais parceiros. Vemos isso como uma jogada inteligente da Microsoft: se cada franquia for leiloada separadamente, as melhores provavelmente alcançarão os melhores preços. Também sugere que os US$ 800 milhões eram uma posição de abertura, não um piso, embora isso seja especulação nossa.
Nosso veredicto: deixe que outros paguem demais
Quem ganha? A Microsoft, que mantém seu poder de barganha e agora tem mais interessados. Quem perde? Os fãs de uma franquia específica, que talvez esperem mais, e a Netflix apenas se deixar escapar uma joia de verdade. Duvidamos disso. Ela ainda tem Gears of War em desenvolvimento, além das animações de Minecraft e Diablo, e pode dar lances por títulos individuais quando houver uma equipe criativa e um plano.
Nosso conselho aos streamings é simples: compre uma história, não um catálogo. Pague pela franquia que tem um showrunner definido, não pelo mural de logotipos. A Netflix teria retirado a oferta após a diferença de preço e uma mudança na liderança, e para nós esse é o instinto certo. Num mercado em que todos querem ser a próxima adaptação de game de prestígio, o ativo mais escasso não é a propriedade intelectual. É a disciplina.
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