Arquivo X sem Mulder e Scully só funciona se tiver coragem de esquecê-los
O novo Arquivo X do Hulu, comandado por Ryan Coogler, com Danielle Deadwyler e Himesh Patel, depende de construir uma mitologia própria em vez de lucrar com a nostalgia.
Foto: Marcin Wichary from San Francisco, U.S.A. / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
O que dá mais medo do que uma invasão alienígena? Um reboot com medo da própria sombra. Arquivo X está de volta, e a primeira coisa a saber é que ninguém vai vestir o terno de Mulder nem carregar o distintivo de Scully. Ou essa é a decisão mais inteligente da televisão de franquias nos últimos tempos, ou é um jeito muito elegante de fugir das comparações. Qual das duas será depende do que acontecer daqui para a frente.
Os fatos são simples, e são corajosos
Como informa o elintransigente.com, o Hulu aprovou o piloto em fevereiro de 2026 e, em 13 de outubro, encomendou uma temporada completa. Ryan Coogler escreveu e dirigiu o piloto e é produtor executivo. Danielle Deadwyler e Himesh Patel interpretam dois agentes do FBI condecorados e muito diferentes entre si, personagens novos e não versões de Scully e Mulder, enviados a uma divisão fechada havia muito tempo para cuidar de casos sem explicação. Cada episódio traz um caso novo, com ciência e fé debatendo ao fundo. O projeto fica sob o selo Onyx Collective, da Disney, segundo o FormulaTV.
Chris Carter é produtor executivo, mas não participa do trabalho do dia a dia, e a volta de David Duchovny e Gillian Anderson não está confirmada. Na Espanha, a série chegará ao Disney+, ainda sem data.
Nostalgia é um empréstimo, e os juros são brutais
A série original durou 11 temporadas e acumulou 61 indicações ao Emmy. Esse é exatamente o problema: uma montanha de reverência pesa sobre este projeto. O caminho fácil seria um desfile de participações especiais, uma dupla de protagonistas que seja basicamente a antiga com rostos novos e um pôster que sussurre "lembra?". Achamos que esse caminho acaba mal, porque o público que vem pela piscadela vai embora no quarto episódio, e o que realmente importa nunca aprendeu a gostar do som daquele tema.
A nostalgia funciona como isca, e muitos reboots provam isso. Mas isca não é alicerce. Se a série precisa que Duchovny ou Anderson apareçam para ter importância, está admitindo que não tem nada próprio a dizer.
O argumento a favor de Coogler: respeito sem reverência
As próprias declarações de Coogler são o que há de mais promissor na cobertura. Ele diz que o que Carter criou é especial e que a equipe quis honrar o que fez a original se conectar com tanta gente, ao mesmo tempo que busca seu próprio caminho para entrar nesse universo. Honrar e encontrar o próprio caminho são dois trabalhos diferentes, e o segundo é mais difícil. Na nossa visão, a porta de entrada é o formato descrito nas reportagens: um caso por episódio, com uma discussão real entre ciência e fé. Essa discussão é o coração da original e não pertence a Mulder e Scully. Pertence à premissa.
A cautela é igualmente clara. A cobertura diz que a nova série não especifica se algum dos protagonistas assumirá uma postura próxima à dos personagens clássicos, nem como será a evolução do vínculo entre eles. Lemos isso como uma página em branco, e preferimos que continue em branco a vê-la preenchida, por padrão, com um crente e um cético. Fazer os agentes de Deadwyler e Patel muito diferentes entre si é um bom começo. Fazê-los diferentes de maneiras que a dupla antiga nunca foi seria o verdadeiro teste.
O que faria dela uma reinvenção, e não um reboot
A grande incógnita é a mitologia. O longo arco de conspiração da original foi ao mesmo tempo sua glória e seu fardo, e apostamos que a nova série se dá melhor construindo algo menor, mais estranho e próprio, mesmo que leve uma ou duas temporadas para ganhar coesão. Uma estrutura de casos independentes ganha tempo, mas não compra identidade. A identidade vem de uma pergunta que a série continua fazendo ao longo dos episódios e que ninguém fez ainda.
Nosso veredito: é uma boa aposta, mas só se o Hulu deixar a equipe de Coogler tratar a série antiga como alicerce e não como cardápio. Assista à série quando ela estrear, não conte com uma participação de Duchovny e Anderson para salvá-la e julgue-a por conseguir ou não descrever sua mitologia sem mencionar Mulder nenhuma vez. Se conseguir, é uma reinvenção. Se não, é só um reboot com um elenco melhor.
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