Nocturne aposta na ameaça de Stephen Graham, e a aposta compensa
O thriller de serial killer da Apple TV é irregular e familiar, mas, ao construir tudo em torno da ameaça silenciosa de Stephen Graham, vira um drama policial difícil de largar.
Foto: JaceMerlyn / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O que faz um drama de serial killer ficar na memória: o caso ou o homem? Nocturne, da Apple TV, responde sem hesitar, e achamos que é a escolha certa. Várias críticas consideram a série frágil como quebra-cabeça. Como estudo de personagem e de ameaça, é difícil desviar o olhar.
O que a Apple está lançando
Nocturne é uma adaptação em 10 episódios dos romances The Sandman e Lazarus, de Lars Kepler, criada por Rowan Joffé e John Hlavin, que transferiram a história da Escandinávia para o oeste da Pensilvânia. Segundo a AP, uma adolescente sequestrada reaparece depois de três anos, e um detetive aposentado (Liev Schreiber) recorre a Jurek Walter (Stephen Graham), um assassino trancado na ala restrita de um hospital psiquiátrico. O FBI envia uma agente infiltrada, interpretada por Zazie Beetz. Os dois primeiros episódios estreiam na sexta-feira, 30 de outubro.
O assassino é a série, e isso é inteligente
A estrutura policial é conhecida: um ex-policial assombrado, uma criança desaparecida, uma agente infiltrada, um assassino sempre um passo à frente. A NME afirma que a série "não é totalmente original" e diz que pode parecer um folhetim comum turbinado com valores de produção de prestígio. A crítica é justa.
O que a eleva é a contenção. A mesma resenha da NME elogia a atuação de Graham, "profundamente assustadora e admiravelmente contida", e a sequência de abertura o mostra convencendo outro paciente a se matar pelos canos. Nada de exagero. Só quietude, uma risadinha aguda e um dom para encontrar os pontos fracos das pessoas. O The Guardian vai além e sugere que o bastão do grande serial killer das telas talvez tenha passado de Anthony Hopkins para Graham. É uma afirmação ousada, que não assinaríamos antes de ver a temporada completa, mas mostra o quanto a atuação impacta.
A escolha também diz algo sobre os hábitos de escalação. Depois de Adolescence, seria fácil escalar Graham como mais um homem comum ferido. Escalá-lo como um predador que explora as fraquezas alheias é a decisão mais corajosa. As cenas com o enfermeiro de bom coração de Rory Culkin, que o Decider destaca pela química, são onde a série entra na sua pele. Para nós, o fascínio não está só em descobrir quem é o culpado. Está em ver um homem sendo manipulado em tempo real, e isso é mais assustador.
Os defeitos são reais, e pesam
Nem todo crítico está convencido. A manchete da TIME a chama de "Uma queima lenta que fracassa". O Guardian admite uma crescente sensação de que a série é "um pouco mais vazia do que pensa" e observa que alguns papéis são pouco desenvolvidos. O Decider diz que as várias tramas se tornam avassaladoras e tiram o foco do mistério central de Jurek. O site de Roger Ebert acrescenta uma ressalva que vale lembrar: a Apple não enviou os três últimos episódios à imprensa, então qualquer veredito sobre a temporada completa é provisório.
Ésse é o padrão a observar. Um assassino tão magnético pode disfarçar muita coisa, e o risco numa temporada de 10 episódios é que a trama precise acompanhar o ritmo do vilão. O sinal inicial, porém, é bom. O MovieWeb informa 92% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes antes da estreia, e até as ressalvas das resenhas da NME e do Guardian vêm acompanhadas de elogios a Graham.
O que isso diz sobre a Apple TV
Diríamos que a Apple faz aqui algo que nem sempre conseguiu: crime sombrio e popular sem se apoiar em uma seriedade lustrosa. Hlavin diz que a série é para ser vista com atenção, e não "dobrando a roupa" enquanto se assiste, uma promessa bem à moda antiga. Ela quer atenção, não barulho de fundo. Sim, continua sendo um thriller polido, com cara de série de prestígio, mas o polimento serve a um monstro humano em vez de esconder a falta de um.
Nosso veredito: assista, de preferência neste fim de semana, já que a série foi feita sob medida para o Halloween. Vá por Graham, aceite que a trama pode oscilar e deixe o julgamento final para quando os últimos episódios chegarem. Se o final não estiver à altura da ameaça da abertura, a série terá sido uma atuação melhor do que uma história. Mesmo assim, seria uma atuação que vale a assinatura.
Ainda não há temas: abra o primeiro.
Mais matérias
PUBG na Netflix só funciona se Donald Glover enterrar a marca
A Netflix aposta em um battle royale sem enredo. O que pode transformar esse logo em história é a autoria de Donald Glover, e as chances são reais, mas pequenas.
O reset da 3ª temporada de Monarch é inteligente, mas os humanos não afundaram a série
Apple e Legendary estariam de olho em novos roteiristas e novos Titãs para Monarch. O instinto é certeiro, mas o problema da série nunca foi drama humano demais, e sim o equilíbrio errado.
A Netflix segue apostando em The Diplomat porque a série nunca grita
Uma quinta temporada, anunciada duas semanas após a quarta, mostra que a Netflix valoriza o thriller adulto que mantém o público mais do que a série-evento barulhenta que explode e some.
A coroa de Noah Wyle como homem mais sexy do mundo prova que a TV faz nossos galãs
Aos 55 anos, um médico de série hospitalar leva o maior título da People. Para nós, isso diz menos sobre a aparência de Wyle e mais sobre onde se constrói hoje o charme de um protagonista.



