Orgulho e Preconceito da Netflix não deveria ser um substituto de Bridgerton
A série de seis episódios da Netflix vai render comparações com Bridgerton, mas seu maior trunfo é a reverência de Dolly Alderton pela graça do livro, não uma embalagem Regency de suspiros.
Imagem gerada por IA
Dá para vender a frase de abertura mais famosa da literatura inglesa como prêmio de consolação? Esperamos que não, porque é esse o destino que tememos para Orgulho e Preconceito, da Netflix. Coloque um novo drama da Regência no mesmo streaming, acrescente espartilhos e casarões no campo, e a comparação com Bridgerton se escreve sozinha. É um atalho compreensível. Também é, na nossa visão, a pior coisa que poderia acontecer com essa série.
O trailer é lindo, mas a verdadeira notícia é quem diz uma das falas
A Netflix divulgou o trailer em 28 de outubro, e a série de seis episódios estreia em 3 de dezembro. Quem a escreveu foi Dolly Alderton, de Everything I Know About Love. Como observa o Collider, Euros Lyn, de Heartstopper, dirige todos os episódios. Emma Corrin interpreta Elizabeth Bennet e Jack Lowden vive o Sr. Darcy. Olivia Colman é a Sra. Bennet, e o elenco inclui ainda Rufus Sewell, Louis Partridge, Jamie Demetriou e Fiona Shaw.
Chamar de suspiro diminui o que Austen realmente faz
Um suspiro é uma sensação: espera, espera e, enfim, alívio. O romance de Austen funciona com outra coisa, que é o julgamento. Duas pessoas se interpretam mal, e a graça está em como o livro observa com agudeza o que elas fazem. Alderton parece entender isso. Na declaração que a Netflix compartilhou com o Tudum, ela lista a vergonha da própria família, o medo de ficar para trás e a humilhação de ter julgado alguém de forma errada ou de ter sido julgado errado. São emoções tão cômicas e sociais quanto românticas.
Uma leitura no estilo Bridgerton empurra a série para as prioridades opostas: o olhar, o calor, as mangas arregaçadas. O redator do Metro de fato disse que Darcy jogando pedrinhas na água e arregaçando as mangas brancas "acerta em cheio". Tudo bem. Só diríamos que essa é a parte fácil. Qualquer um filma luz filtrada pelas folhas. Fazer o público rir de um pedido de casamento que dá errado é a parte difícil.
A escolha para a Sra. Bennet é o que mais entrega
O detalhe mais interessante do trailer não é um Darcy bonito. Segundo o Metro, a Sra. Bennet de Colman é quem diz a famosa frase de abertura do romance: "É uma verdade universalmente reconhecida…". A explicação de Alderton é que esse é o drama central da história dela, porque casamento é tudo em que a Sra. Bennet pensa.
Achamos uma decisão inteligente e confiante. Ela transforma o comentário irônico de um narrador em personagem e liga a piada a dinheiro e sobrevivência, não só a romance. Esse é o verdadeiro motor de Austen. Uma série que quisesse ser apenas uma guloseima luxuosa dificilmente se daria ao trabalho. Uma série que confia no texto, sim.
Há também um risco na direção oposta. Reabilitar a Sra. Bennet com simpatia está na moda, e o próprio Metro aponta uma cultura que gosta de reavaliar personagens vistos como "incompreendidos". Se a série lixar o lado cômico dela para torná-la querida, perde uma fonte do humor do livro. O trailer ainda a mostra gritando com o Sr. Bennet por deixar tudo "tão dramático", o que é animador. Apostamos que o equilíbrio se mantém, mas é uma previsão, não algo que tenhamos visto.
O que a Netflix deveria fazer, e o que os espectadores deveriam fazer
Quem amou Bridgerton provavelmente vai assistir de qualquer forma, então a Netflix não precisa correr atrás desse público. O maior perigo, se a série for vendida como puro conforto romântico, é o espectador chegar esperando uma temperatura cada vez mais alta e encontrar uma história sobre conversa, julgamentos errados e economia. Seria um problema de marketing criado pela própria plataforma.
O contexto também está lotado. O Metro conta a série como parte de um outono austeniano, depois de uma nova versão de Razão e Sensibilidade e com The Other Bennet Sister a caminho. Uma série que disputa o posto de programa reconfortante da Regência vai parecer intercambiável com as vizinhas. Uma série claramente mais engraçada e mais afiada, não.
Nosso veredito: vá esperando uma comédia de costumes com uma história de amor dentro, não uma dose de Bridgerton. Se Alderton e Lyn mantiverem a graça em primeiro plano, este Orgulho e Preconceito não vai precisar da comparação. Se deixarem a embalagem mandar, vai merecê-la. Saberemos em 3 de dezembro.
Ainda não há temas: abra o primeiro.
Mais matérias
O Harry Potter da HBO já tem data. Agora precisa de uma razão para existir
O dia 25 de dezembro transforma anos de especulação em prazo, mas o teste real é se uma releitura mais lenta dos livros consegue se justificar e largar a bagagem da franquia.
PUBG na Netflix só funciona se Donald Glover enterrar a marca
A Netflix aposta em um battle royale sem enredo. O que pode transformar esse logo em história é a autoria de Donald Glover, e as chances são reais, mas pequenas.
O reset da 3ª temporada de Monarch é inteligente, mas os humanos não afundaram a série
Apple e Legendary estariam de olho em novos roteiristas e novos Titãs para Monarch. O instinto é certeiro, mas o problema da série nunca foi drama humano demais, e sim o equilíbrio errado.
A Netflix segue apostando em The Diplomat porque a série nunca grita
Uma quinta temporada, anunciada duas semanas após a quarta, mostra que a Netflix valoriza o thriller adulto que mantém o público mais do que a série-evento barulhenta que explode e some.



